e hoje coloco de lado todo o meu eu que aqui impera, só para compartilhar...
tenho caminhado todos os dias, caminhado pra mim, sem olhar ou pensar. E hoje já havia caminhado, mas mesmo assim resolvi voltar andando, dessa vez só para observar esse monte de pessoas que andarilham por ai, cada qual na sua correria, na sua velocidade. Podia muito bem me enfiar no metrô e vir direto pra casa, mas perderia essas cenas curiosas e corriqueiras.
Ali, no meio da multidão, do lado do metrô Paraiso tem um pequeno cortiço (para não dizer mini favela) em um terreno abandonado. Todo mundo passa ali na frente, mas poucos observam aquelas diversas familias que vivem ali. Hoje, passando na frente, um pai estava saindo com sua carroça para recolher papéis e nela 2 crianças, deitadas seminuas em um papelão cobertas por uma manta xadrez azul e vermelha me chamou a atenção... e fui seguindo, observando. Será que essas crianças vão lembrar disso daqui 20 anos? Da felicidade boba e ingênua? Da brincadeira de pedir "tia, me ajuda! Dá uma ajuda, tia!" entre sorrisos bobos, os dentes perfeitos, brancos e reluzentes, como numa brincadeira perfeita. Será que essas crianças vão lembrar das luzes do ônibus que passava, para o qual elas olharam com tanto brilho no olhar, ou então para as luzes da cidade... hora vermelhas, hora amarelas ou até brancas. Qual será o destino dessas duas crianças? Tão ingênuas, tão perfeitamente CRIANÇAS... sem saber que já lhes roubaram a inocência, que a sociedade já determinou por elas, brincam ali em seu carro de luxo, com teto solar... "só pra ver as estrelas, tio".
Continuo seguindo-os, curiosa que sou, atenta aos movimentos desses pequeninos e de como o pai brinca com eles, ameaçando voltar pra casa, fazendo onda, levantando o carrinho, dando rodopios no meio da avenida... só pra vê-los gostosamente gargalhar... sigo andando, passo na frente de um bar, a juventude de classe média está ali no seu Happy Hour, comendo e bebendo, demonstrando sua raiva com o "acontecimento do momento" (para o qual nada vão fazer a não ser reclamar, não vão nem tentar mudar...) alheios àquela cena tristemente linda. Ninguem os nota, invisíveis que são. Passo do lado de um senhor deitado no chão, completamente coberto, exceto um olho que acompanha os passos dos transeuntes que o ignoram, ali escondido no canto escuro da rua, ele nota o carro das crianças e , no meio da sua dor, os ignora também. Como se aqueles risos fossem ofensivos. Mas as crianças não querem saber do acontecimento do momento ou do senhor a quem elas ofenderam. Elas só querem ver as estrelas. Nesse céu cinza, a anunciação de chuva, no meio dos prédios, entre a nuvem de poluição. Elas só querem rir e ver estrelas. O pai para o carro para recolher papelão e eu paro à porta da loja como quem não quer nada e continuo ali observando o trio. As crianças descem e observam a vitrine enquanto o pai amassa as caixas na rua, brincam de fazer a pose dos manequins, falam ao segurança da loja "Tio, meu maior sonho é poder ver as estrelas todos os dias" o segurança, intrigado, pergunta porque e o pequenino com toda sua sabedoria de criança responde "porque elas estão sempre brilhando e iluminam mesmo quando ta escuro!"
"we are all meant to shine, as children do"
=´)
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